
Eis a chama -
Eis tudo: o resultado da fagulha que toca o pavio.
A chama,
Que acende pequena, minimamente e delicada,
Precisa de cuidado pra crescer, embrutecer…
Mais cuidado ainda pra não crescer demais,
Vir a ser e a nutrir as labaredas da barbárie.
A chama,
Consome paulatinamente o pavio da vela,
Arde! Faz o tempo e a cera derramar,
Tomar rumo, acontecer, ganhar jeitos.
A chama,
Amorfa, inconstante, trêmula, bamba, anômala…
Faz-se e desfaz. É imprevisível e frágil, como a vida.
Uma a passageira, um só instante.
Um momento que se despedaça em tantos outros
Que são fragmentos, nunca sempre alheios.
A chama,
Um aconchego agradável nos dias frios
Um alimento do desejo nos dias quentes
Aquece ao se aproximar,
Mas queima e fere se invadir.
A chama,
Dá a luz e ilumina para amar
Mas é arisca e por isso faísca
Quando quer se isolar
Mesmo que seja por um fragmento de momento
De um momento em que a palavra não basta.
A chama,
Sozinha tem pouco a iluminar
É nada mais que uma centelha
Perdida no vão da obsolescência,
Da ausência obscura, com muito medo.
É por isso que pra não se ofuscar
Une-se a tantas outras chamas
Pra iluminar o bosque, a comunidade.
A chama,
Encontra-se sobre a vela
Que, por sua vez, é suportada por um castiçal
São múltiplos os tipos, uma infinidade…
Mas, sem mistificação, são apenas castiçais.
O que interessa mesmo é a chama,
E a vela que arde e se desmancha nela.
A chama,
É lançada ao mundo em sua fragilidade,
Corre o risco onipresente e latente
De a qualquer momento apagar-se
Seja quando a ocasião assoprar
O oxigênio acabar, O vento passar,
A cera findar, o pavio falhar
Ou, então, inexplicavelmente
E simplesmente apagar.
Eis o mundo: o ardor do tumulto de uma infinidade de chamas alvoroçadas.
Por: Artur André Lins

Insólito -
Ouve-se o deslize…
O atrito de um corpo angustiado
Com outro maciço e inexorável.
Resulta, disso, o chiar de uma dúvida
Já é madrugada e não para de chiar,
Um pra lá, três pra cá, lá e cá.
Quando supõe-se uma harmonia,
A fricção revela a disritmia
Compulsiva, obsessiva, irracional…
A imaginação sugere ser:
Um sujeito louco,
Um dançarino mouco,
Ou qualquer um outro
Que com passos desenganados
Vara a madrugada se entorpecendo
Pois é isto que um ser faz.
Se entorpece, até que padece,
Padece por ser assim, insólito.

O Ser Cru -
Sangue pulsante, expulsaste tu,
A imobilidade utópica da plenitude.
Vívida correnteza da inquietude, deixaste nu
O sentimento da riqueza unificada,
Sobra-te a essência, a descontinuidade, o ser cru.
A caça pelo inaudito revela,
A estranheza de tropeçar em si,
De se despir da sombra que vela
A fim de dissecar-se com o bisturi,
E com ele findar o desarranjo ideológico
Que impera sobre o corpo e a alma
Da crueza advém beleza, ressignificância
Inventividade imbuída de sensibilidade
Crueza criadora, preenche o vazio com exuberância
Esculpe ordinariamente um ser inexato
Desequilibrado, desproporcional e desarmonizado…
Livre dos espíritos saudosistas
Num movimento síncrono das vivências
Escoa a vividez dos deslindos diários,
Do tropeço quotidiano no Eu, sem cadência…
A crueza é utópica, é idealismo aos vividos
Assim vos digo que não há, se houve,
Plena crueza no cozido cultural…
Que arrasta consigo até a mais tenra idade…
Onde é possível relativa crueza e candura pela vida
A crueza
Situa-se numa órbita sem sol. Não há lei de atração
Que indique a razão, ou a proporção… Porque não há.
Pois, a crueza em si, é a ambiguidade do todo interrompido.
Por: A.A.L

Bumba eu, Brasil-Bumbá -
Oh terra do boi-bumbá!
Bumba eu, quero acordar,
A desgraça é tanta, não vêm a calhar.
Desespero arraigado, colhido desde quinhentos
Sinfonia da dor toca arrepios, lamentos…
Sabem eles matar na mata e a própria mata.
Diz-se a nata, visão lusa ilusória.
Marubu, Matipu e Suruí
Krahô, Karajá ou Kayapó
Arara, Bororo e Guaraní
Tupi, Kaxinawá ou Pataxó
A pólvora do mosquete, pavorosa!
Sucumbiu o arco e flecha sem prosa
Avante Xavante! É tarde…
Resta vossa reza, folclore do Brasil-Bumbá!
Pega Boitatá, pega cara pálida!
Curupira fora atrás de Caipora pra ajudar
Lá vem a Cuca, vêm pegar criança indócil,
Descaso com a Mãe Terra deve findar.
Dói saber… Folclore não vence guerra!
Vence com ambição que dispara, mata…
Isso, Índio não ter, não quer e não cata
Avante Xavante! Caçar além do Araguaia
A soberba lusitana, traficantes d’alma,
Carreou cultura dentro de porões negreiros.
Batuque, Candomblé e Umbanda! A força dos guerreiros,
Trazidos aos canaviais eram o sustento perfeito.
Em solo luso-tupinamericano, foram reificados
Pelo olhar da ganância ímproba e truculenta
Dá-lhe capoeira! Respondiam os quilombolas
Musica, dança, meia-lua pra cá e pra lá
Vem dessa mistura, o meu Samba-Bumbá
União da graça com desgraça, serviu
Como condição dessa formação vil
Que florescera e ganhara cores, verde e amarelo meu Brasil.
Por: Artur André Lins

Uma Dó-Si de madrugadas… -
“Ao calar da madrugada serena
Onde sobram apenas: calma e criatividade
O dueto “grilo e violão” fazem a alma vibrar
O silêncio, não pleno, serve como amplificador
As notas saem limpas… Doces… Confortantes
De dó a si, dentre suas variantes
Revelam o inconsciente fulgurante
A endorfina liberada percorre as veias
Chega aos dedos, que transformam em musica
Toda aquela energia retida ao longo do dia
Os olhos fecham-se lentamente ao passo que
Os dedos fugazes deslizam nos trastes
É envolvente… Perpétuo… Vigoroso…
As cordas amarram-se às emoções
O timbre dos sentimentos ecoa pelo universo
Uma verdadeira amálgama de corpos flutuantes
Uma autêntica anastomose entre homem e violão
E quando o instrumento incorpora-se ao ser
Toda aquela ordinariedade momentânea se esvai
E da vazão a um momento único, eterno e sublime
Uma relação tênue como carne e unha
Ao mesmo tempo rijo como Mãe e filho…
Só quem sente ou já sentiu sabe
Que não há exageros em meus versos.
Por: A.A.L

Iago Interior -
Assustador como, por vezes,
A intuição toma forma
E deforma o suposto real
Diriam ser auto-sabotagem
Talvez fruto do ócio fútil
Seja o que for, se for…
É justo a tal, que me fertilizo
Sem saber por em palavras
Dedico-me a estes versos
Na tentativa de distrair-me
Irônico não? Sim…
Procurar uma rota de fuga
Usando como mapa as próprias algemas
No descompasso me encontro
Desritmado, desarmonizado
Confuso com o contraponto mental
De duas ideias ressonantes…
O cheiro amargo das notas
Suscita-me uma discrepância sinestésica
Que vem deixar-me embriagado de incertezas…
Por: A.A.L

Vera querida -
Minha Vera querida
Foi-se, não voltou
Prometeu-me harmonias
E as cores do amor
Coloriu Avenidas
O bosque enfeitou
Dissipou alegrias
A vida prosperou
O cantar das cigarras
Junto ao florir das flores
Floresceram idéias e amores
Não obstante, espantou males e rancores
O cair das chuvas,
Deu-se de pingo à gota
Saciou a sede dessa terra
Semeou vida por toda esta
Minha Vera querida
Primeira de todas as Veras
Minha prima, primavera
Por ti, fico à espera.
Por: A.A.L

Sabem-se quem viu?
Ninguém sabe, ninguém viu
Mas eu vos digo, digo o que se viu
Um sujeito homem em sua fúria
Queimou a bandeira do Brasil
As cinzas deixadas, em seu retrato árduo,
Concederam à esbelta pátria verde-amarela
Um cenário oculto de desgrado-mazela
Condenado, Tal sujeito homem foi,
Um fardo socio-racial que de ancestrais fora herdado
Assim como a tão histórica quanto falsa alforria
O homem melaninado tornou-se segregado
Se aboliram o tronco, esqueceram-se das chibatadas
Pois, ondas sonoras de um sofrer contínuo
Viajaram por séculos e ainda são escutadas
Desde quinhentos anos que vos antecedem
Vive o império dos notáveis
Que de nota em nota, vão sugando
A alma dos cujo não lhes devem
Contudo… Se fossem somente notas, estas se fossem…
Por: A.A.L

Cá estou eu, delatando… -
Foi dito que a natureza está a nos servir
Foi dito que as florestas não podem nos sentir
Foi dito que ser racional é destruir
Foram criadas necessidades ilusórias
A meu ver, alimentam o ego e enfeitam o ser
Floresceram idéias de que tudo ser faz no ter
Fizeram de um mar de sentimentos bons
Um antro de sofrimento continuo
Em meio à disritmia urbana
Acende uma tímida esperança, contada e cantada
Pelo assobiar profético dos pássaros
Dito irracional pelos racionais
Que não são capazes de decifrar
Ofereceram petúnias de angústia
Dadas por tais racionais, falsos messias…
Detentores da “verdade absoluta”
Que de absoluto, reina a incerteza
Usurpadores da mãe-terra
Ferem não só a si
Mas a toda uma orquestra de altos e baixos
Ferem um ambiente entrópico
Que apesar de toda a desordem
Tem seu próprio tempo de caos
Tempo este, é coagido
Pela paradoxal razão irracional
O assobiar profético passa despercebido…
A fúria dos mares é incompreendida…
A febre da orquestra é contornada…
E,
Ironicamente, o vírus dessa doença
É a mais provável salvação,
Dele vem o antídoto da renovação!
Cá estou eu, delatando…
Delatando, pois sei que me incluo
Nesse marasmo que se encontra a humanidade…
Por: A.A.L

Mais um feito -
Temerosa ousadia
Diga-me onde quer me levar,
Se o limite não limita,
Não há quem me segurar
Se faço de emoções
Um punhado de versos,
Com punhais faço-me
Um apunhalado poético
Da dor faz-se poesia
Assim como violência
Assim como profecia,
Mas não há de sofrer pra entender
Que de amor, faz-se muito mais
Num emaranhado de pétalas
Reina a alforria petulante
Deserdada de bom senso
Fez do dono arrogante
Se da vida fazem o que se faz
Faça da vida um feito de paz
Sem a escusa de ser inábil
Sem a ingenuidade do descrer maleável
Saiba que…
O vento que sopra
Faz carícias de frescor
De tanto soprar
Fez do poeta um sonhador
O vento que sopra
É agradável não traz dor,
Prova que o feito
É bem feito com amor.
Por: A.A.L

Voa pra avisar -
Um minuto vai
Um minuto voa
Voa passarinho
Voa pra avisar
Que eu não vou voltar
Passa o dia
Passa a hora
Passa o passarinho
Passa pra avisar
Que eu não quero estar
Naquele estranho lugar
Aqui, no campo estrelado
A brisa bate, penteia meus cabelos
Chove chuva limpa, chuva doce
Purifica meu corpo inteiro
E assim faço-me liberto
Sem mandato ou permissão
Aqui, o ar invade o pulmão
Me Enche de vontade
De ser e viver
A sinfonia suave
Do arrastar das folhas
Do assobiar dos pássaros
Da fluidez do rio
Me fazem acreditar
Em viver uma vida vivida
Aí, Na estufa cor de pedra
A brisa é brasa
Queima tudo, resta nada
Aí, a chuva chove,
Chuva suja, chuva ácida
Corrói seu corpo inteiro
Fazem-te refém
Sem mandato ou permissão
Aí, o gás te rasga
Te enche de fumaça
Na estufa cor de pedra
Constrói-se só desgraça
O barulho agonizante
Do buzinar das maquinas
Do gritar dos aflitos
Do chorar dos vivos
Me fazem certo
Neste lugar, eu não quero estar
Dessa vida serventina, vou me distanciar
Passa passarinho
Voa Passarinho
Passa voando pra lá
Mas só pra avisar
Que não vou voltar
Não demore passarinho
E não se esqueça de voltar
Pois mais do que eu
Você sabe passarinho…
Que o campo é seu lugar.
Por: A.A.L

Relatos de um cara Armado -
Ouvi relatos de um cara armado
Armado com sua própria razão
Seu pensamento virou tormento
Daqueles que não possuem opinião
Suas palavras nos alertavam
Sobre um mundo de ilusão
O seu conceito era perfeito
Para aqueles que se dizem sãos
E com passos curtos, trilhou estradas
Sem uma certa direção
O seu caminho era o destino
De uma rota feita pela ocasião
Ouvi relatos de um cara “louco”
Que de tanto falar ficou rouco
Falava, Falava e cantava
Que o mundo em que vivemos
Só tem mouco
E nos relatos ele berrava:
Nesse mundo de competições
Minha pobreza é minha riqueza!
Minha derrota é minha vitória!
As pessoas em volta sem entender
Perguntavam-se:
Oh Deus, porque tanta glória?
Combatente da opressão
Foi julgado e censurado
Um cara armado, armado com o saber
Armado contra o acúmulo e a ostentação
Sua verdade não é absoluta
Sua luta não é pelo poder
Sua vontade não está à venda
Sua venda, não vende o ser.
Por: A.A.L
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Sonho de Frank -
Quero-te aqui perto
Fazer de ti meu cobertor,
Quero-te ao meu lado
Fazer de ti minha expressão do amor
E contigo consumar meu sentimento
Ao seu lado preciso estar
E de mãos dadas caminhar pelas ruas à noite
Sentindo o frio tranquilizar meu corpo
Sentindo o calor ferver meu sentimento
A brisa cortante passa pelo rosto
Os olhares se entrelaçam,
Já não eram mais olhares inocentes,
Eram olhares de desejo,
Tanto carnal quanto sentimental
Alma e corpo se completando
Teus lindos olhos iluminados pela lua
Tão galante quanto aquele momento
O vento penteando teus cabelos
Aquela beleza natural fascinante
Teu cheiro exala… Me alimenta…
E junto com o aroma das plantas
Me deixa em estado de êxtase
O abraço conforta, as faces se encostam
Olho no olho…
Sinto-me destruído pelo desejo
Até que eles se fecham
E o tato dos lábios fica sensível
Sinto minhas extremidades gelarem
Algo tão esperado há de acontecer
Sinto meus lábios formigarem
Algo de tão esplêndido há de acontecer
Os lábios se encostam…
O beijo se consuma.
É envolvente, é constante, é molhado, é saboroso,é animal, é eterno!
Tal momento não se limita aos lábios,
As mãos acompanham o sentimento
Deslizando pelo corpo, somos um só.
…
….
…..
……
…….
Acorda! Acorda! Frank, acorda.
Por: A.A.L

Meu Caminho -
Sei que onde estou
Não é onde queria estar,
E pra onde vou
Não irás acompanhar-me
Não julgue-me por não ser
O que querias que eu fosse,
Que fosse eu, o que tu querias ser,
O que eu faço pra provar
Será que vale apena lutar?
Ou é muito esforço? Ou que será?
Sei que vou continuar
Tenho um caminho a trilhar
E se onde estou satisfaz o destino,
Este não me satisfaz
Em sua memória ficarei
Como tal qual não verás
Não sou uma peça de tabuleiro,
Ainda assim, insistem manipular-me,
Mil coisas a fazer,
Nenhuma delas inclui-te
Não queira me envolver
Em coisas que estou-me a desfazer
Você pecou mais de uma vez,
Você brincou, não viu o que fez?
Agora vem se desculpar…
Mas você esqueceu…
Quem dá as cartas da minha vida sou eu
Não é você, nem mais ninguem.
Esqueça-me! Não voltarei atrás
Desapareça-te, pra min tanto faz
Tu és passado, já não me importo,
Viver sem você, eu até suporto.
Por: A.A.L

Os Olhos -
Eles falam, mentem, sentem
Eles transmitem silenciosamente
Tantas mensagens…
Eles revelam descaradamente
Tantos segredos…
São eróticos e ao mesmo tempo tão inocentes
Por traz da couraça melancólica
Há tanta pureza, tanta beleza…
Hora tão quente quanto o fogo
Hora tão frio quanto a neve
Uma figura paradoxal, incompreensível
Cada um é interpretado de um jeito
Cada um quer dizer algo
A representação traiçoeira dos pensamentos
Sim, são eles, os olhos…
Que com freqüência me deixam confuso
As vezes querem dizer-te um simplório
“Eu te amo”
Ou então um deselegante
“Sai pra lá”
Mas como interpretá-los?
Como compreende-los?
Será possível?
Somos bombardeados por eles
Os olhares maldosos
Olhares indecentes ou inocentes
Olhares curiosos, amorosos
Uma infinidade de olhares
Cada olhar, um pensamento
Cada pensamento, um sentimento
E é assim que eles me levam a loucura.
Por: A.A.L